16.3.12

A Sombra do Vento

Um romance de Carlos Ruiz Zafón.

Às vezes as coisas organizam-se de modo a que nos caia no colo um livro destes. Memorável!

Carlos Ruiz Zafón é um romancista nascido em Barcelona e não é nenhum estreante. Autor de outros romances editados com largo sucesso e uma colecção de prémios que é uma boa legenda para o seu talento. Pelo que apurei, o seu seu último romance, "O Jogo do Anjo", já atingiu a espantosa marca de um milhão de exemplares vendidos em Espanha (aproximadamente 1 livro vendido por cada 40 espanhóis!).

Zafón vive actualmente em Los Angeles e trabalha como argumentista de cinema. Em "A Sombra do Vento" escreve sobre aquilo que melhor conhece: Barcelona e livros.

Uma história onde a imaginação se cruza com a erudição. Um exemplo de que, afinal, é ainda possível inventar um enredo inovador. E um exemplo de que se pode escrever uma "história de aventuras" com a carga cultural de um "guia turístico" que nos mostra Barcelona na primeira metade do século passado com os olhos de um apaixonado por livros. Uma trama onde não se sabe onde começa a realidade e termina a acção de um misterioso romance, esse mesmo também intitulado de "A Sombra do Vento".

Deixo-vos com algumas passagens...

(...)  
"Porque eu não tenho pressa, sabe? Há por aí patêgos que acham que se puserem a mão no cu de uma mulher e ela não se queixar, já a têm no papo. Aprendizes. O coração da fêmea é um labirinto de subtilezas que desafia a mente grosseira do macho trapaceiro. Se quiser realmente possuir uma mulher, tem que pensar como ela, e a primeira coisa é conquistar-lhe a alma. O resto, o doce envoltório macio que nos faz perder o sentido e a virtude, vem por acréscimo.
Aplaudi o discurso com solenidade.
- O senhor está um verdadeiro poeta, Fermín.
- Não, eu estou com Ortega e sou um pragmático, porque a poesia mente, embora em bonito, e o que eu digo é mais verdade que o pão com tomate. Já lá dizia o mestre, mostre-me um dom-joão e eu mostro-lhe um mariconço disfarçado. Para mim é a permanência, o perene. Tomo-o a si como testemunha de que farei da Bernarda uma mulher, senão honrada, porque isso já ela é, pelo menos feliz."
(...)
"- O Julián vivia portas adentro, para os seus livros e dentro deles, como um prisioneiro de luxo.
- Diz isso como se o invejasse.
- Há prisões piores que as palavras, Daniel."
(...)
"Abateu-se a tarde quase à traição, com um hálito frio e um manto púrpura que resvalava entre os resquícios das ruas."
(...)
"Suspirei. Amparava-nos o anoitecer e aquele silêncio de abandono que une os estranhos, e senti-me com coragem para dizer não importava o quê, mesmo que fosse pela última vez."
(...)
"- E como me vês tu a mim?
- Como um mistério.
- Esse é o elogio mais estranho que alguma vez me fizeram.
- Não é um elogio, é uma ameaça.
- Porquê?
- Os mistérios é preciso resolvê-los, averiguar o que escondem.
- Se calhar decepcionas-te ao ver o que há lá dentro.
- Se calhar  surpreendo-me. E tu também."
(...)
"- Olhe Daniel, na minha idade ou se começa a ver a joga com clareza ou está-se bem lixado. Esta vida vale a pena ser vivida por três ou quatro coisas e o resto é adubo para o campo. Eu já fiz muita tolice, e agora sei que a única coisa que quero é fazer a Bernarda feliz e morrer um dia nos braços dela.  Quero voltar a ser um homem respeitável, sabe? Não por mim, que a mim o respeito deste orfeão de macacos a que chamamos humanidade deixa-me completamente murcho, mas por ela. Ela é assim e eu gosto dela como ela é, sem que me mudem nem um pêlo daqueles que lhe aparecem no queixo. E por isso quero ser alguém de quem ela possa estar orgulhosa. Quero que pense: o meu Fermín é um pedaço de homem, como o Cary Grant, o Hemingway ou o Manolete."
(...)
"- Mas o homem é o Daniel e é a si que lhe cabe tomar a iniciativa.
Aquilo começava a adquirir um cariz funesto.
- A iniciativa? Eu?
- Que quer? Algum preço tinha de ter o poder mijar de pé."
(...)
"- Olhe Daniel. As mulheres, com notáveis excepções, como a sua vizinha Merceditas, são mais inteligentes do que nós, ou no mínimo mais sinceras consigo próprias sobre o que querem ou não. Outra coisa é que o digam a uma pessoa ou ao mundo. O Daniel está confrontado com o enigma da natureza. A fêmea, babel e labirinto. Se a deixa pensar, está perdido. Não se esqueça: coração quente, mente fria. O código do sedutor."
(...)
"Tomaz e eu ficámos sozinhos rodeados de um silêncio que prometia mais solidez que o franco suíço."
(...)
"- Diz-me cá, rapaz, já entraste alguma vez num Mercedes Benz? Pois já não é sem tempo. É como subir ao céu, mas não é preciso morrer."
(...)
"- Olhe, Daniel. O destino costuma estar ao virar da esquina. Como se fosse um gatuno, uma rameira ou um vendedor de lotaria: as suas três encarnações mais batidas. Mas o que não faz é visitas ao domicílio. É preciso ir atrás dele."
(...)

Ainda há livros assim.
Leiam. Vale a pena.





1 comentário:

Tai disse...

"A Sombra do Vento" é um livro maravilhoso, assim como "Marina" do mesmo autor.